top of page

ENCONTRAR UMA AMAZÔNIA

DA COR DA MINHA PELE​

​

​

Amazônia é uma ideia-lugar disputada por muitas mentes de ontem e de hoje. Essa mentes, além de repercutirem seus interesses na devastação desse território, perpetuam desigualdades por meio da estigmatização das mais diversas realidades (e mundos) presentes na região.

​

Encontrar uma Amazônia da cor de minha pele, diferente do que eu imaginava, me permitiu acessar lugares que nunca pensei existir.

​

Vivenciar esses lugares — esses muitos lugares — que constituem a Amazônia, me despertou a consciência das diversas formas de (in)visibilidade cultivadas nesse território, quase todas relacionadas aos povos originários, aos indígenas que vão sendo “apagados no tempo” pelos recém-chegados “pioneiros” — numa tentativa neocolonial de cristalizar um marco zero, posterior à história das origens da Amazônia.

​

Uma marcante forma de “(in)visibilidade” ocorreu/ocorre no esteio de uma regionalização do Corpo Negro, a ponto de se tentar reforçar a ideia das “raízes negras” apenas restritas à região nordeste do Brasil.

​

Tocar a presença e o legado das populações negras na Amazônia significa apropriarmo-nos de parte fundamental da história do Brasil, também submersa à escravização da humanidade dos corpos africanos, a partir da segunda metade do século 18, com o deslocamento em massa de populações de Vila Bela da Santíssima Trindade para o Vale do Guaporé, no período em que Rondônia ainda era território do Mato Grosso e do Amazonas. À época, tais deslocamentos populacionais serviam à estratégia de exploração do ouro e à construção do “Forte Príncipe da Beira” (RO), entendido como área de “defesa” das fronteiras territoriais.

​

A partir de 1870, migrações negras passaram a modificar a região amazônica, principalmente, com a chegada das populações vindas do Pará, do Maranhão, Ceará, Bahia e outras localidades — período marcado pelo “Ciclo do Ouro” e “Ciclo da Borracha”.

​

Entre 1907 e 1912, trabalhadores da “diáspora barbadiana” contribuíram com mão de obra qualificada para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e também colaboração para uma efetiva institucionalização de serviços relacionados à educação, saúde e outras políticas sociais na região.

​

Atualmente, novas diásporas se instalam na Amazônia, como a dos recém-chegados haitianos e venezuelanos.

​

O acesso a estórias/histórias das inúmeras populações negras na Amazônia trouxe à tona a necessidade de ressignificação da própria história do negro no Brasil, uma vez que nos deparamos com uma série de contribuições e influências ainda não (re)conhecidas.

​

Hoje, prosseguir com o desvelamento e a circulação dessas estórias/histórias é um modo de não deixar de ver como o Corpo Negro fez/faz o Brasil, tal como ele é. E, sobretudo, tal como o Brasil poderá ser, quando admitir, reconhecer e valorizar suas raízes africanas.

​

Há uma Amazônia Negra, que são várias. No meu trabalho, tenho me encontrado com a Amazônia indígena e negra, cujo afeto-imagem-destino brota da terra.

​

​

*Texto publicado na Agência Pública, outubro de 2019. 

>>> Acesse nossa Galeria de fotografias na Agência Pública 

​

​

bottom of page